Nova pagina 1

Almanáará    Bio    Trovadores   Pantheon   Nóis   Dona Sophia   VAza-Barris    SAct-ça-Pererê  

 

Hermeto,  originalidade à flor da pele

 

O baobá do qual brotou Hermeto, de tão alto, não se vê o cume. 

Sua obra é, concomitante, singular e universal: inconfundível.

 

 

Nascido a 22 de junho de 1936, em Lagoa de Canoa, município alagoano, o jovem Hermeto escapou do trabalho árduo no campo por ser albino, e não poder ficar exposto ao sol. “Talvez esse fato tenha contribuído em seu interesse pela música”, esclarece o jornalista Werner Salles Begetti. Sua carreira teve um início precoce – Morzart alagoano –, animando com seu acordeão (instrumento que aprendera a tocar aos 5 anos de idade) os bailes “pé-de-pau”, batizados e casamentos, na parceria com seu irmão, João Neto, em dolorosas ocasiões em que os dois tinham que percorrer a pé, durante várias horas, ou até um dia inteiro para chegar ao lugar da festa.

Com a mudança da família para Recife, isso em 1950, o duo se apresentou nas rádios Tamandaré e Jornal do Commércio.  No ano seguinte, Hermeto já se destacava como acordeonista e começava suas primeiras experiências com foices, enxadas e garrafas, batendo nos objetos e tentando repetir o som no acordeão,  naquilo que ele próprio denominaria, futuramente, como “o som da aura”, ou seja, a reprodução dos sons do mundo, sons da natureza, através dos instrumentos musicais.

Já no Rio de Janeiro, teve o primeiro contato com o piano na Rádio Mauá; depois foi a vez do baixo, numa passagem em que foi confundido com Sivuca por um rapaz que precisava urgentemente de um contrabaixista.  Esclarecido o engano, Hermeto, se dizendo contrabaixista, sem nunca ter posto suas mãos alvas naquele instrumento de cordas, topou tocar naquela noite... “subiu ao palco e tocou o baixo como se fosse um velho conhecido.” Depois veio a flauta, dominada em apenas um mês.

“O bruxo”, “o mago do som”, “o músico da natureza” ou “the Albino Crazy”, apelido dado pelo trompetista norte-americano Miles Davis, se fez longe de qualquer modismo e buscando sempre o inexistente, numa miscelânea de timbres e valores rítmicos, onde o clássico e o contemporâneo se fundem.

Um homem simples, “comum” – a não ser pela aguçadíssima percepção auditiva –, rompedor de regras, com convicções mais que próprias.  Certa vez, quando lhe perguntaram se ele tinha alguma religião, Hermeto respondeu:  “tenho sim, a música.  Outra não porque as pessoas vão para a religião, elas vão porque saíram de uma coisa ruim, geralmente.  Porque estavam doentes, querem se curar, ficar boas.(...)  a religião que Deus botou no mundo é aquela que você abraça para fazer, o jornalismo, a música, qualquer profissão do ser humano(...)”

É também espantoso o fato de que alguém que nunca freqüentou uma escola de música – a não ser a da vida –, a escreva, a distorça, a domine, a possua e a use em prol da paz, interiorizando as sensações do ser humano....

É sabido que  Hermeto não pára. Seja nos  ensaios  diários ou nos shows, sempre  arranja um jeitinho para “fazer barulho”, barulho bem feito.

Numa das últimas façanhas, o músico resolveu, entre 1996 e 1997, compor uma peça musical por dia.  O resultado foi a obra “Calendário do som”, com 366 composições, saudando também o ano bissexto.

Hoje aquele doido chato que incomodava os feirantes da  feira  livre de Arapiraca, fazendo uns barulhos estranhos, que espantavam a freguesia, escreve  partituras  para a Sinfônica da Alemanha; é aplaudido de pé em festivais internacionais de música, como o de Montreaux, na Suíça.

BioNão é preciso, aqui, cogitarmos o porquê de tal gênio criativo não ser tão divulgado pela mídia, já que  aresposta  nos é conhecida.  E parece que Hermeto, com sua intelectualidade e musicalidade atemporais,  não dá muita importância a esse fato; é, e sempre há de ser,   o mesmo grande, em escala  cromática  infinita,  a  anti-síntese do ser     buscador   do   íntimo  das coisas mais simplórias, as matérias-primas da  obra esplêndida chamada  Hermeto Pascoal.

Adriano dos Santos

 

 

“O dom pra mim é uma imagem,uma figura.

Meu professor foi meu dom.”

(Hermeto Pascoal)

 

Almanáará    Bio    Trovadores   Pantheon   Nóis   Dona Sophia   VAza-Barris    SAct-ça-Pererê